Um estudo bíblico, histórico e escatológico
INTRODUÇÃO
A questão sobre a participação da Igreja na Grande Tribulação é um dos temas mais debatidos da escatologia cristã. Ao longo da história da Igreja surgiram diferentes interpretações acerca do arrebatamento, da manifestação do anticristo e da volta de Cristo.
O objetivo deste estudo é apresentar, de maneira organizada e equilibrada:
- O conceito bíblico da Grande Tribulação;
- As principais correntes escatológicas;
- Os textos usados por cada posição;
- A visão histórica da Igreja;
- A influência do Calvinismo e do Arminianismo;
- Aplicações espirituais para os cristãos atuais.
1. DEFINIÇÃO DE TERMOS
1.1 Grande Tribulação
A expressão “Grande Tribulação” aparece principalmente em:
“Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco haverá jamais.” — Mateus 24.21
No grego:
“Thlipsis Megálē” (θλῖψις μεγάλη)
a) Thlipsis — Tribulação
Vem do verbo grego thlibō, que significa:
- Apertar;
- Comprimir;
- Esmagar;
- Oprimir.
Sentido espiritual:
- Aflição intensa;
- Sofrimento extremo;
- Perseguição;
- Angústia.
A palavra é usada em:
- João 16.33
- Romanos 5.3
- 2 Tessalonicenses 1.4
Assim, tribulação representa uma pressão espiritual extrema que prova a fé.
b) Megálē — Grande
Deriva de mégas, significando:
- Grande;
- Intenso;
- Extraordinário.
Logo, “Grande Tribulação” refere-se a um sofrimento sem precedentes na história humana.
1.2 O que é a Igreja?
A Igreja é o corpo espiritual de Cristo formado pelos salvos mediante a fé no evangelho.
“E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as coisas, o constituiu como cabeça da igreja.” — Efésios 1.22-23
2. A GRANDE TRIBULAÇÃO NAS ESCRITURAS
2.1 Base profética no Antigo Testamento
A Grande Tribulação está associada à:
- Septuagésima semana de Daniel (Dn 9.24-27);
- Angústia de Jacó (Jr 30.7);
- Juízo final das nações.
Daniel 9.27
O período é geralmente entendido como sete anos proféticos, divididos em duas partes de três anos e meio.
2.2 Estrutura do período tribulacional
Segundo muitos intérpretes dispensacionalistas:
Primeira metade
- Falsa paz;
- Governo crescente do anticristo;
- Aliança com Israel.
Segunda metade
- Rompimento da aliança;
- Perseguição intensa;
- Juízos severos;
- Manifestação plena da besta.
Essa segunda metade é frequentemente chamada especificamente de “Grande Tribulação”.
3. PRINCIPAIS CORRENTES ESCATOLÓGICAS
3.1 Pré-tribulacionismo
Ensina que:
- O arrebatamento ocorre antes da tribulação;
- A Igreja é retirada da terra;
- Cristo volta visivelmente após os sete anos.
Textos usados:
- 1 Tessalonicenses 1.10
- 1 Tessalonicenses 5.9
- Apocalipse 3.10
Argumentos principais:
- A Igreja não foi destinada à ira;
- A tribulação é principalmente para Israel e os ímpios;
- A ausência da palavra “igreja” em Apocalipse 6–18;
- O arrebatamento deve ser iminente.
Tipos bíblicos usados:
- Enoque antes do dilúvio;
- Ló retirado de Sodoma.
3.2 Meso-tribulacionismo
Ensina que:
- A Igreja passará pela primeira metade;
- O arrebatamento ocorrerá no meio dos sete anos;
- A Igreja será poupada da fase mais severa.
Fundamentação:
- A última trombeta;
- Divisão profética de Daniel.
3.3 Pós-tribulacionismo
Ensina que:
- A Igreja permanecerá na terra durante toda a tribulação;
- O arrebatamento ocorre após a tribulação;
- O arrebatamento e a segunda vinda são eventos conectados.
Textos usados:
- Mateus 24.29-31
- 2 Tessalonicenses 2.1-3
- João 16.33
Argumentos principais:
- A Igreja sempre sofreu perseguição;
- Os “eleitos” em Mateus 24 seriam a Igreja;
- Não há texto explícito sobre duas vindas separadas.
3.4 Pré-ira
Ensina que:
- A Igreja passará parte da tribulação;
- Será retirada antes da ira plena de Deus;
- Diferencia perseguição satânica da ira divina.
4. TEXTOS BÍBLICOS IMPORTANTES
4.1 Textos usados pelo Pré-tribulacionismo
1 Tessalonicenses 1.10
“Jesus, que nos livra da ira futura.”
1 Tessalonicenses 5.9
“Porque Deus não nos destinou para a ira.”
Apocalipse 3.10
“Também eu te guardarei da hora da provação.”
Os pré-tribulacionistas entendem esses textos como promessa de remoção da Igreja antes da tribulação.
4.2 Textos usados pelo Pós-tribulacionismo
Mateus 24.29-31
“Logo depois da tribulação daqueles dias...”
2 Tessalonicenses 2.3
“Sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado.”
João 16.33
“No mundo tereis aflições.”
Os pós-tribulacionistas entendem que a Igreja enfrentará o período final de perseguição.
5. O PAPEL DA IGREJA DURANTE A TRIBULAÇÃO
5.1 Se a Igreja estiver presente
- Haverá testemunho poderoso;
- Muitos serão perseguidos;
- Surgirão mártires da fé;
- Deus preservará espiritualmente os seus.
Textos:
- Apocalipse 6.9-11
- Apocalipse 7.3-17
5.2 Se a Igreja for arrebatada antes
Os pré-tribulacionistas entendem que:
- Os santos da tribulação serão convertidos após o arrebatamento;
- Deus levantará testemunhas específicas;
- Haverá atuação angelical extraordinária.
Textos:
- Apocalipse 11.3-12
- Apocalipse 14.6
6. VISÃO HISTÓRICA DA IGREJA
6.1 Pais da Igreja
Os pais da igreja, em sua maioria, entendiam que:
- A Igreja enfrentaria perseguição final;
- O anticristo surgiria antes da volta de Cristo;
- Os santos perseverariam até o fim.
6.2 Irineu de Lião
- Associava o anticristo ao período final;
- Entendia que os cristãos enfrentariam perseguição.
6.3 Hipólito de Roma
- Falou sobre o anticristo;
- Defendia perseverança dos fiéis.
6.4 Tertuliano
- Via a tribulação como purificação da Igreja;
- Destacava fidelidade até a morte.
7. O SURGIMENTO DO PRÉ-TRIBULACIONISMO MODERNO
7.1 John Nelson Darby
Foi um dos principais responsáveis pela sistematização do dispensacionalismo moderno.
7.2 Principais ideias do dispensacionalismo
a) Divisão da história em dispensações
Deus administra a história em períodos específicos.
b) Distinção entre Israel e Igreja
- Israel → promessas terrenas;
- Igreja → promessas celestiais.
c) Arrebatamento pré-tribulacional
A Igreja seria retirada antes da Grande Tribulação.
d) Interpretação literal das profecias
Especialmente:
- Daniel;
- Ezequiel;
- Apocalipse.
8. CALVINISMO E ARMINIANISMO
8.1 Calvinismo
Características:
- Ênfase na soberania divina;
- Perseverança dos santos;
- Preservação dos eleitos.
Muitos calvinistas históricos tendem:
- ao pós-tribulacionismo;
- ao amilenismo.
Textos usados:
- Romanos 8.35-39
- João 17.15
Ideia central:
A Igreja pode passar pela tribulação, mas Deus preservará os eleitos.
8.2 Arminianismo
Características:
- Livre-arbítrio;
- Necessidade de perseverança;
- Responsabilidade humana.
Em muitos meios pentecostais:
- predomina o pré-tribulacionismo.
Textos usados:
- 1 Tessalonicenses 5.9
- Apocalipse 3.10
Ideia central:
Deus livrará a Igreja da ira futura.
9. POSIÇÕES DE TEÓLOGOS CONTEMPORÂNEOS
9.1 Antônio Gilberto
Defendia:
- visão pré-tribulacionista;
- divisão da tribulação em duas partes;
- livramento da Igreja antes da ira divina.
9.2 Elinaldo Renovato
Em suas obras:
- sustenta o pré-tribulacionismo;
- interpreta Apocalipse 3.10 como promessa futura para a Igreja.
9.3 Hernandes Dias Lopes
Defende:
- visão pós-tribulacionista;
- unidade entre arrebatamento e segunda vinda;
- permanência da Igreja durante a tribulação.
10. QUESTÕES IMPORTANTES NO DEBATE
10.1 A Igreja desaparece em Apocalipse 6–18?
Pré-tribulacionistas:
Dizem que isso indica que a Igreja já foi arrebatada.
Pós-tribulacionistas:
Argumentam que os santos mencionados nesses capítulos são a própria Igreja.
10.2 Existem duas vindas de Cristo?
Pré-tribulacionistas:
- Uma vinda secreta para a Igreja;
- Outra pública após sete anos.
Pós-tribulacionistas:
- Uma única segunda vinda gloriosa.
10.3 Tribulação e ira são a mesma coisa?
Essa é uma das maiores discussões:
- Alguns entendem que toda tribulação é ira divina;
- Outros distinguem perseguição humana da ira final de Deus.
11. CONCLUSÃO GERAL
A Bíblia afirma claramente:
- Que haverá um período de intensa tribulação;
- Que Cristo voltará;
- Que os santos devem perseverar.
Porém, a Bíblia não declara explicitamente o momento exato do arrebatamento em relação à tribulação.
Assim surgem diferentes interpretações:
Pré-tribulacionismo
A Igreja será arrebatada antes.
Meso-tribulacionismo
A Igreja passará metade do período.
Pós-tribulacionismo
A Igreja permanecerá até o fim.
Pré-ira
A Igreja será retirada antes da ira final de Deus.
12. APLICAÇÃO PRÁTICA PARA A IGREJA
Independentemente da posição escatológica:
O cristão deve:
- Vigiar espiritualmente;
- Perseverar na fé;
- Permanecer santo;
- Não viver distraído espiritualmente;
- Esperar a volta de Cristo.
“Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.” — Apocalipse 2.10
“Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória.” — 2 Coríntios 4.17
CONSIDERAÇÃO FINAL
A maior preocupação da Igreja não deve ser apenas descobrir quando ocorrerá o arrebatamento, mas estar preparada para encontrar-se com Cristo.
Seja antes, durante ou após a tribulação, a esperança da Igreja continua sendo:
“Ora vem, Senhor Jesus.” — Apocalipse 22.20
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